Capítulo 50
- Aaaargh!”
Foi com um grito que Douglas iniciou sozinho a manhã de segunda-feira, suado e muito assustado, com aquela sensação de não poder gritar ou mover as pernas, enquanto o estranho barco em que estava sacudia de um lado para o outro. E aquele garoto mais uma vez estava atrasado para a aula.
Douglas ainda estava com o sonho pulsando em seu corpo quando chegou à escola e ouviu uma voz conhecida.
- Atrasado de novo, senhor Douglas?
Pena, como era chamado entre seus amigos, esquivou-se do diciplinário Alexandre sem ouvir suas advertências, logo após receber um olhar nojento de Camila.
- Ainda apronto pra essa metidinha - pensou Pena assentando-se ao lado do inseparável Paulo.
* * *
- Tenho que dar um jeito Paty, daqui a pouco minhas olheiras estarão da cor de uma berinjela...
Camila retocava sua pele amarela enquanto Paty, companheira de firulas, passeios e magreza, trançava sua loira cabeleira.
- Seu pai não é psicólogo? – Perguntou Paty enquanto prendia sua trança - Conversa com ele, conta sobre esses sonhos malucos e diz que está dormindo muito mal!
- Meu pai é militar Paty, tenho vergonha de contar essas coisas para ele e ele rir da minha cara. Além do mais, sua área é comportamento criminal. Ele pode cuidar melhor daqueles trombadinhas da 7 D do que do meu caso.
Camila era filha de pai e mãe militares e poderia perfeitamente estudar em uma instituição militar como o Colégio Tiradentes, todavia, sempre apegada a seus amigos, não conseguia abandonar a confusão daquele seu tão amado colégio.
- Vamos Camila, me conta seu sonho de novo. Como você pode sonhar com um bosque e ficar paralisada de medo?
- Não era só um bosque Pata, eu estava cercada de seres horríveis!
- Mais horríveis que os meninos da Valia?
- Você não entende né Pata?
Na verdade, Pata (como Camila gostava de chamar sua companheira), só entenderia as palavras da amiga dias depois, mas Luiz, que ouvia sem ouvir tudo na mesa ao lado compreendia tudo perfeitamente.
Ele havia ingressado na escola por meio de uma iniciativa da prefeitura, que engajava alunos com limitações especificas em salas de alunos ditos “normais” para adaptação. Por ser surdo e estrábico, os poucos alunos que se dirigiam a ele, tachavam-no de louco. Pirata, de costas, só observava.
* * *
Machadão, como os alunos chamam a Escola Estadual Joaquim Maria Machado de Assis, era uma escola grande, no sentido plano da palavra, possuía vinte salas de aula, um auditório, um teatro de arena, uma cantina comum onde a merenda era gratuita (quase sempre sopa era distribuída), e uma cantina central cercada por mesas de pedra com quatro lugares, onde vendia-se de tudo: chicletes e balas proibidos pela direção, cachorros quente, sanduíches, sucos e refrigerante diversos.
Às 11h30min, Paulo e Pena abandonaram a sala como verdadeiros maratonistas. Era uma sala situada ao fundo do ultimo prédio que foi reservado para os alunos repetentes e de famílias desligadas do convívio escolar, quesito que se enquadrava perfeitamente na situação dos dois amigos.
- Fala ai malucão, como era o barco onde cê tava? – Perguntou Paulo enquanto levantava os braços e imitava um fantasma arregalando os seus indecifráveis olhos verdes.
- Cala a boca mané. Ainda estou bolado e tremendo de susto. Bem que você podia me ajudar, perguntando para o seu pastor o que são esses sonhos malucos.
- Do jeito que as coisas estão, o pastor vai dizer que a culpa é da sua mãe...
Pena que não conhecia o pai, fora criado pela mãe Marta que quase não via e por um padrasto que sempre estava metido em alguns lances lá no alto do morro. Em desespero com o pequeno Douglas nos braços, Marta se viu acolhida por uma seita de candomblé da qual se tornou adepta, o que piorava ainda mais a discriminação quanto a sua figura de mulher, mãe solteira, pobre e segundo o pastor, macumbeira.
Capítulo 51
O ônibus 320 era uma linha especial designada pela prefeitura para o transporte de alunos com necessidades especiais e principalmente, para pessoas com algum distúrbio mental e cognitivo.
Ali se encontrava misturado alunos de diferentes escolas com uma característica em comum: a discriminação que existia fora das portas e janelas daquele veiculo.
Ônibus de doido, expresso loucura, eram alguns dos nomes dados a aquele transporte, mesmo sem nenhum daqueles meninos passarem perto de um quadro de perturbação mental.
Era nesse veiculo que Luiz, ou Pirata (como era chamado por possuir um adesivo mo olho esquerdo), percorria os quarteirões que separavam sua casa da escola, era um trajeto curto porem demorado, uma vez que o ônibus era obrigado a realizar sucessivas paradas.
Como toda manha, Pirata assentou-se e automaticamente dormiu, estava exausto e não queria pensar em nada. Não queria pensar que passava toda noite em claro com medo de fechar os olhos e compartilhar o medo que sentiam alguns alunos do Colégio Machadão, alunos esses que nem sequer tinham percebido sua existência. Pirata tranquilamente dormia.
* * *
- Camila não vai à aula hoje Pata, ela passou mal a noite toda e vai ficar na cama. – disse Sofia, mãe de Camila, manobrando o carro ao mesmo tempo em que abria o portão automático.
- Pode deixar tia, eu só vou cuidar dela.
Pata entrou como uma lebre antes que o portão se fechasse completamente, dando tempo de ouvir Sofia gritar em agradecimento.
No volante, Sofia pensava na força da amizade verdadeira, e no tempo que perdia longe de sua filha para da-la conforto.
- Porque não vamos à aula, rainha da preguiça? – Perguntou Pata, que já havia abandonado o fichário branco na mesa da cozinha e trocava por leite e biscoitos.
- Depois do pesadelo não dormi a noite toda e quando amanheceu, disse pra minha mãe que estava com cólica. – e ficando preocupada Camila continuou – Se esses sonhos não pararem, tenho a impressão de que vou parar em um hospício. Acho que vou ter que falar com o meu pai.
Ela estava realmente desesperada, seus olhos apertados jorravam lágrimas que rolavam primeiro em suas suaves olheiras e depois sobre suas rosadas bochechas. Suas mãos agarravam o edredom amarelo e o fixava em volta do corpo, como um abrigo ou escudo.
Captando a fraqueza de sua amiga, Pata retirou o edredom, assentou-se também na grande cama tubular e com um gesto maternal colocou a cabeça de Camila no colo e afagou o rosto da amiga.
- Deita e relaxa, quando tudo passar, vou te fazer um lanche e esqueceremos essa historia de bosques sombrios. Depois que você descansar, vamos a locadora pegar alguns filmes. - disse Pata tentando acalmar a amiga.
Ao perceber que Camila estava começando a adormecer, Pata depositou sua cabeça no travesseiro e abandonou momentaneamente a amiga no seu quarto verde piscina para se dirigir à cozinha sem ter tempo de ouvir as ultimas palavras da amiga que pegava de vez no sono:
- Não era só o bosque, dessa vez havia zumbis.
* * *
- Paulo! Paulooooooo!
Pena, trinta e cinco minutos antes do costumeiro encontro na esquina, iniciou aquela sexta-feira sem seu bom humor habitual, quebrando um acordo feito consigo mesmo.
O pai de Paulo, certa ocasião olhou torto para Pena depois que sua casa fora quase completamente esvaziada, e tudo que restou depois da limpa foram às roupas, a estante, um fogão e o sofá da sala.
Mesmo sem falar, todos na casa inclusive o próprio Pena, sabiam que havia sido seu padrasto o autor daquela infâmia. Depois do acontecido, mesmo sob protesto da dona Rebeca (mãe de Paulo), o senhor Isaac nunca mais considerou da mesma forma o inocente Pena, mantendo-o afastado, chispando de longe seus olhos azuis.
Hoje aquela regra a distância havia sido quebrada, o desespero de Pena e seu desejo por companhia, o fizeram abandonar ainda mais cedo seu quarto de folhar de latão, as margens do córrego Jatobá e esgoelar-se às portas daquele, agora impenetrável sobrado luxuoso na Rua José Ouvidio Guerra.
- Calma ai Maluco! Quer ganhar uma TV na cabeça?
Paulo surgia na janela com os cabelos para o alto e os olhos verdes rodeados por vazos sanguíneos avermelhados.
- Desce aí velho!
A angústia de Pena foi sentida pelo fiel companheiro no alto do sobrado, o que fez trocar-se e abandonar a casa em menos de quarenta segundos, ignorando os protestos de seu pai aposentado e sua mãe subserviente.
- Pega dinheiro pro lanche filho! – disse a mãe.
- Fala pro seu amigo gritar só mais um pouco Paulo, falta o resto da cidade! – ironizou seu pai.
Ao encontrarem-se no portão, ambos com aspecto deplorável, caminharam lado a lado até que Pena suspendeu o silêncio:
- Desculpa cara, mas eu já estava angustiado, mal agüentei esperar o dia amanhecer. Desculpa na sua casa.
- Não fica bolado maluco, você sabe que minha mãe te adora e meu velho só ta tentando entender aquela história do assalto.
A cabeça de Paulo trabalhava velozmente tentando evitar as perguntas de Pena, tentando uma escapada, ele perguntou:
- O mané do seu padrasto caiu de pau de novo?
Caindo inocente no drible Pena justificou:
- Nada, o idiota ta fugindo, parece que o lance é feio. Eu é que tô acordado há horas...
- Sonhou com os bichinhos de novo? – Perguntou Paulo
- Não zoa seu Zé! Você não tem noção do que eu ando passando toda a noite. – Pena desabafou - Eu choro. Aquele sonho é muito real, tento gritar e não consigo, tento correr e as pernas não se mechem, sinto o coração na garganta e o pior de tudo é a completa sensação de abandono, uma solidão de quem grita e não ouve a própria voz.
Paulo ouvia e entendia claramente cada palavra que Pena dizia, contudo faltava-lhe força párea retribuir ao amigo todo apoio que recebera nas maiores angustias e dificuldades. Ele desligou-se de seu companheiro e deixou o pensamento flutuar para os dias longínquos da separação de seus pais, de uma crise conjugal que durara quatro longos meses sem receber de sua mãe a menor noticia.
Pena, estranhando o mutismo de Paulo tentou recobrar a atenção do amigo:
- Presta atenção Zé! Tô aqui contando a minha vida ruim, e você nem liga poxa!
- Foi mal Malucão, tenho que dá idéia de uma coisa que ta pegando comigo...
Tudo foi muito rápido, já estavam na porta da escola entre o especial 320 e a entrada, quando um choque de algo vindo do ônibus especial chocou-se no chão.
Pena percebeu a dantesca cena, empenhou-se em levantar o desequilibrado Paulo ao mesmo tempo em que recolhia o material do Luiz Pirata.
- Você ta louco cara, quase me manda longe! – disse Paulo.
Pirata com um dos olhos tapados por um adesivo e o outro arregalado de espanto, batiam em sua orelha direita com o indicador e o médio cruzado dizendo-se surdo e jurando não entender nada.
- Deixa pra lá cara, já tem gente demais pra zoar com o Luiz na escola... – disse Pena tentando segurar o riso olhando para seu amigo e tomando novamente o rumo do portão.
A situação mesmo que desastrosa, aparentemente servira de forma positiva para os três. Primeiro aliviando as tensões de Pena, segundo mantendo Paulo livre de ter que abrir-se ao amigo e por último, deixando Pirata sem dois envelopes brancos que trazia nos bolsos e conseguira entregar sem suspeitas ao destinatário.
Capítulo 52
Quando criança, o professor Epitáfio cometera uma terrível travessura: subiu por uma parede do estacionamento até o alçapão esquecido no teto do auditório, mas antes que pudesse abri-lo, despencou lá de cima quebrando o braço e algumas costelas. Sua curiosidade lhe rendeu algumas semanas longe da escola, mas não lhe trouxe o esquecimento, e anos depois, como professor de geografia daquela mesma escola, Epitáfio teve a tão aguardada chance de desvendar naquele dia o que havia no sótão do auditório por detrás daquele misterioso alçapão.
Epitáfio havia conquistado a todos na escola, nesse seu reingresso recém formado em uma universidade particular, suas aulas eram disputadas e divertidas, sua jovialidade havia lhe rendido um carinhoso apelido de professor Malucão.
De portas fechadas e com uma curiosidade enlouquecedora, o professor de geografia posicionava sua escada de abrir bem embaixo do alçapão, quando ouviu uma voz latente em sua cabeça:
- Professor preciso falar contigo, por favor, abra a porta.
Antes de subir, o Epitáfio atendeu prontamente o chamado mental do aluno e amigo, que diferente de outros dias, apresentava-se radiante por detrás do tapa-olho adesivo.
Fora a esse único amigo que Pirata revelara sua capacidade de se comunicar sem emitir um único som sequer, apenas pensando e ouvindo o pensamento de outras pessoas. Desde então, Epitáfio e Luiz passavam todo o tempo livre juntos conversando animadamente, ambos de bocas fechadas, mas de coração e pensamento abertos.
Apressado, o professor se dirigiu a porta, percebendo imediatamente que cometera o erro de deixar a porta do alçapão aberto. Agradeceu a Deus por ter um amigo tão discreto, que mesmo tendo consciência do que se passava por detrás daquela porta, não ousou entrar nem anunciar sua presença, coisa que seria muito comum caso não fosse Pirata e sim qualquer aluno.
- Professor, professor... – Pirata entrou na sala fingindo não perceber a escada – Seu plano deu certo!
Epitáfio não era somente o único qual conhecia as habilidades telepáticas do amigo, mas o único que sabia que Luiz sofria todas as noites vendo e sentindo os pesadelos de certos alunos da escola.
* * *
Camila e Pata passaram toda à tarde daquela quarta-feira enfiadas em compras e sacolas, tentando esquecer o tormento da noite e inutilmente tentando afogar a tristeza em um consumismo torpe.
Na quinta-feira, as amigas estavam pontualmente assentadas na mesa de pedra a sudoeste da cantina alternativa, dedicando-se a simples contemplação do movimento.
- Posso te confessar uma coisa Pata? – Perguntou Camila
Pata, abraçada em seu fichário, distraia-se com seus cachos enrrolando-os com os dedos.
- Não vai me dizer que tem outro daqueles...
Antes que ela pudesse concluir, Camila a cortou apressada:
- De jeito nenhum! Eu ia dizer que estava com saudade da escola. Ficar sem vir aqui ontem não me fez muito bem, parece que meu dia ficou incompleto.
- Eu também amiga! Aquelas sacolas todas não resolveram seu problema não é? A 7D não é a mesma sem as especiais aqui. Alem do mais...
Hoje não era mesmo o dia de Paty dizer frases completas. Antes que ela pudesse completar a ultima, um tumulto no fim do corredor interrompeu-a. Um grupo de garotos perseguiam um menino franzino, provavelmente da 6 série.
O garoto avançou em direção das meninas atropelando-as. Camila indignada esquecendo-se de seus modos saltou diante dos rapazes a um segundo de esbofeteá-los.
- Vocês não têm vergonha de perseguir um menino desse tamanho não? Essa escola ficaria bem melhor sem os ogros da 7D!
O garotos bufando de raiva, crivaram seus olhos em Camila que não vacilou um segundo para avançar mais um passo em direção a eles.
Pata que tremia mais que todos juntos, foi quem percebeu a vinda do professor Epitáfio e da supervisora Elenice.
- Que ta pegando aí moçada?
O tom do professor geógrafo já era conciliador, e estrategicamente formulado para que ninguém saísse suspensa ou com ocorrência, registrada no histórico. Contudo, a supervisora parecia querer sangue, olhou com raiva e superioridade para os alunos e balançou os braços feito um guarda de transito.
- Ações como essas, devem ser estipadas de nossa escola como se elimina pragas em um uma plantação! – ela grasnou.
Elenice era uma figura no mínimo esquisitíssima. De quadril largo e pernas finas, insistia em se apresentar em publico com roupas semelhantes a dos mais estranhos desfiles de moda. No momento do tumulto, trajava saia jeans desfiada por cima de uma calça que misturava xadrez verde e roxo, um paletó com um grande círculo nas costas, e na cabeleira castanha, um palito preto combinando com seus óculos estreitos.
- Todos para a surpevisão agora!
Um calafrio passou pela espinha tanto dos cinco perseguidores, quanto de Camila e Pata, exceto o garoto, que agora aparentava a calma de um jogador de xadrez. Foi à vez de o professor Epitáfio intervir novamente. Usando um pouco de seu charme, passou o braço sobre os ombros de Elenice, endureceu um pouco e falou:
- Sabiam que isso é motivo para suspensão galera? Antes de subir para a sala da supervisão, gostaria de discorrer sobre a ética na escola com vocês. Se é claro, a professora e a supervisora Elenice me permitir.
Epitáfio disse isso enquanto retirava suavemente as mãos do ombro da supervisora e acariciou de leve o seu pescoço. Elenice sentia com esse gesto, que todo o sangue de seu corpo fluía para o seu rosto e que a qualquer momento iria desfalecer. Antes de libertar os alunos com um gesto de cabeça, cravou suas longas e rosas unhas no fichário de couro preto que trazia consigo, girou sobre o salto e bateu em retirada.
Era por volta de 11h25min de sexta-feira, e um grupo de alunos certamente da professora Carla que sempre terminava as aulas mais cedo, já estavam no pátio. Sete alunos repetentes intitulados “O Bonde” estavam procurando o que danificar na escola, ou em alguém, quando do lado oposto do pátio, Ademir um aluno com quatro repetências no histórico e líder n’O Bonde dos Asnos, avistou Lara, uma menina do ensino médio com longos cabelos ruivos, com uma beleza hipnótica, que em algumas vezes gabava-se por estrelar anúncios publicitários locais. Mesmo na rua, aquela menina com calça de ginástica chamava bastante atenção.
- Ei Larinha! – disse Cláudio, o mais atarracado dos membros do bonde, que só se uniu a eles por sua habilidade em conseguir respostas para as aprovas, além da necessidade de segurança.
- Esquece ele Lara, quando quiser falar com um homem de verdade, chama o papai aqui.
Alheio a aquilo tudo, Pirata passava com uma pilha de livros.
Peço desculpas a você leitor para fazer uma interrupção. Qual a lei Universal que rege tais momentos? Se fosse uma invencionice o que narro, possivelmente tudo seria uma cena de cinema, mas seres humanos fisicamente menores e mais fracos, gatinhas de escola e valentões, são uma mistura altamente perigosa.
Foi tudo muito rápido. Pirata, agarrado por Ademir, esperneava sendo enforcado por uma corda de ginástica enquanto o pé, o fortão o derrubava forçando-o a ficar de quatro.
- Gosta do meu cachorro Larinha? Espero que você cuide de mim melhor do que eu cuido dele.
Lara deteve-se por um momento, virou e caminhando para Ademir com todo o mel que poderia liberar de seus volumosos lábios rosados, tomou-lhe a corda das mãos e disse:
- Dá ele pra mim?
- Claro docinho, o que quer mais? Tenho mais um bichinho na minha coleção – O Bonde nesse momento dava urros de exaltação com a cena.
- Quero só mais duas coisinhas: – Ela dizia enquanto colocava a corda de volta nas mãos de pugilista de Ademir.
– Primeiro que você corra até aquele matagal... - o sussurro dissimulado de Lara era pura volúpia, mas todos estavam por tabela, excitados e mudos com a cena. Ninguém sequer respirava.
Com a voz gutural, um sorriso de fazer inveja a qualquer tubarão e pegando-a pela cintura Ademir atalhou:
- E depois delicia?
Naquele instante, o sinal para o fim de semana tocou deixando o pátio abarrotado de gente, e de novo muito rápido Lara continuou:
-... fazer um lanchinho de capim e depois ir procurar seu cérebro otário!
A joelhada na virilha veio seguida de uma bofetada que arrancou a lente dos óculos coreanos de Ademir que segurando as intimidades, teve sua bermuda arrancada por Pirata até os tornozelos.
Embasbacados, todos cercaram Ademir enquanto Lara tranquilamente se afastava. E Pirata mancando, tentava correr.
- Filho da P***!
O impropério era a senha. Dizia ao bonde tudo ao mesmo tempo; Ademir recuperava-se do golpe e queria vingança. Reunia e direcionava o grupo e principalmente, definia o alvo, que seria o claudicante Luiz que tentava como um peixe, fazer a piracema entre a corrente contraria de alunos.
“- Sala do Epitáfio. Sala do Epitáfio.
Pensar isso fazia Pirata focar apenas no objetivo. Depois de passar pela multidão, ele ouvia os gritos d’O Bonde e a cada segundo sentia-se menos vivo.
Passou pela cantina e viu que não conseguiria, o banheiro das meninas não era a melhor idéia e antes mesmo de trancar a porta já teria duas ou três costelas fraturadas. Um agarrão forte em sua mochila fez sua coluna estalar. O mais leve e ágil d’O Bonde já o alcançava, Luiz sapateou enquanto soltava-se da mochila partindo em disparada em direção a quadra.
“- O auditório!”
Parecia a única saída, ali poderia prender a porta que dava para as quadras e qualquer tumulto seria percebido pela supervisão. Mas e se a porta estivesse trancada? Adeus. Perderia preciosos segundos sendo destroçado. Foi quando tudo ficou escuro...
Um tijolo lançado por Ademir atingiu o lado direito de Pirata fazendo-o tombar em uma linha grossa de sangue escuro, o aparelho arrancado da orelha deixou-o mais indefeso ainda. Luiz tombou com a boca batendo na porta do auditório.
- Será que ele morreu?
- Caraca maluco! Acho que cê jogou muito forte!
- P***A NENHUMA cara! Não joguei nada não ta certo?
- Ah fo**s galera, vamos vazar antes que a velha Elenice chegue.
Passados eternos três minutos a escola mergulhara em um profundo silencio.
Luiz que pressionava o local do sangramento com a mão esquerda, tateou o chão com a visão desfocada pela pancada em busca de seu aparelho.
- Inutilizado!
E pegando o objeto que o salvara, dispensou-lhe uma ultima olhada lançando-o para o outro lado da quadra.
A porta do auditório estava aberta.
* * *
A muito não era assim. Pena levantou disposto como se não houvessem desafios maiores no mundo, era domingo e ele já acumulara duas noites seguidas de sono profundo e ininterrupto. Um recorde!
Camila que fora passar o final de semana na casa de Paty, sentia-se como alguém que acordara de um lindo sonho em um paraíso. Nem se importava em acordar em um local estranho no andar térreo de uma bicama, olhando para o teto de estrelinhas fosforescentes de sua amiga nefelíbata.
Virou-se para o lado e deu de cara com o glúteo de Pata que ressonava com uma posição engraçada. Camy esticou-se e sorriu para si mesma. Levantou-se de um salto abraçando toda sua vida, um sol morno e contagiante entrava pela fresta da cortina. Camy olhou-se no espelho e estava linda! Poderia sair dali sem maquiagem direto para uma capa de revista, como não era muito a sua, optou por fazer caretas diante do espelho, torcia o nariz, revirava os olhos, levantava as sobrancelhas, esticava a língua...
- Ahahahaha... - Era o sinal do ridículo. Paty acordara e acompanhava toda a cena das caretas.
- Como dormiu donzela? – O quarto era só alegria.
- Pela posição que estava parecia sonhar que era um ovo frito – Ombro a ombro as duas amigas disputavam espaço no espelho de corpo inteiro. – Com o que estava sonhando Paty?
- Se eu te contar teria que te matar amiga... – Caíram na risada.
Em pouco tempo estavam simulando um desfile de moda e mais gargalhadas entre uma troca de roupa e outra.
Paulo estava disposto. Engolira com seu pai o café da manha e já dava a segunda volta de bicicleta na Lagoa da Pampulha. Muitos naquele dia tiveram a mesma idéia, o que dava aquela região um ar de festa.
- Pai, o que é de verdade um pesadelo?
O pai piscou duas vezes, limpou o suor da testa e parando para pegar uma água de côco ganhou tempo para uma resposta.
- Está tendo sonhos ruins filho?
* Inserir Pesquisa.
Mesmo que o ambiente fosse tão agradável entre os quatro, o mesmo não se aplicava a casa de Luiz. Sozinha sua mãe chorava diante do telefone a espera de noticias.
Batidas fortes no portão fizeram seu coração de mãe sofrer um sobressalto, ao mesmo tempo em que a policia investigativa batia a porta, Epitáfio saltava de seu carro a tempo de também ser recepcionado.
- Ola dona Helena. Conforme o informado seu filho foi visto pela ultima vez no pátio da escola em uma briga com colegas. Tristemente o circuito de câmeras da escola estava desligado por falta de manutenção...
Nesse momento Epitáfio baixa a cabeça e coloca-se ao lado de Helena, convicto de que tantos detalhes fossem prólogo de más notícias.
- A senhora disse que seu filho era surdo, talvez pudesse identificar um objeto.
A frase “seu filho era” fez com que os joelhos de Helena vergassem sob seu peso e foi à vez de Epitáfio demonstrar força. Dentro de um saco transparente, um aparelho auditivo jazia destroçado com manchas de sangue.
- Onde isso estava? – Perguntou Epitáfio sendo imediatamente mal interpretado.
- O senhor é pai do garoto? – Disse o policial roliço, com bigodes andorinha ao mesmo tempo em que levantava a calça e olhava com olhos ameaçadores.
- Não! Sou um amigo da família. – Epitáfio é esperto, dizer que era professor do garoto e justificar para os gentis policiais sua presença naquela casa simplesmente por gostar de um aluno era exigir demais da mente obliqua daqueles homens.
- Passamos um pente fino pela escola e nada encontramos, seu filho tinha inimigos ou estava envolvido com drogas? - O gentil policial menos gordo e sem bigodes parecia não querer perder tempo. – Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo pode nos ligar. Tivemos que esquadrinhar cada milímetro daquela quadra e pátio e não vimos nada.
O policial estendeu um cartão vagabundo com um nome, um símbolo da policia civil e um número de telefone para a mãe aflita.
Quando a senhora Helena ligou para Epitáfio naquela manha com voz chorosa, o mesmo passou a investigar internamente quais os possíveis lugares para encontrá-lo. Ficou chateado com as regras de acionamento da policia. Qual a razão de se ter que esperar vinte e quatro horas para o inicio da investigação policial se o suposto desaparecido era um adolescente que só ia da escola para a casa em um ônibus fretado pela prefeitura?
“- Idiotas!” – Desabafou internamente.
Porém, quando aquela cômica dupla de policiais apareceu, algumas conclusões puderam ser formuladas mesmo por quem não é treinado para investigação criminal;
. Pirata estava ferido e a QUASE quarenta e oito horas não tomara o ônibus pra a volta da escola (Helena o alertara do relatório do motorista), estava sem aparelho auditivo e o ferimento fora perto da quadra.
E a conclusão mais fácil e importante de todas:
. A quadra, os ferimentos e o sangue estavam perto do AUDITÓRIO.
Primeiro passo, voltar para a escola.
- Ajuda Memorável -
*Sexta á noite
Depois de se arrastar para o auditório Pirata apagara, acordou sem certeza do dia com um lado do rosto empapado de sangue e muito tonto. Buscou no sótão do auditório, uma pia para lavar-se, e o relógio da parede para informar-se. Logo sua mãe estaria em casa e era necessário se apressar.
Lavado, e tendo usufruído da providencial caixa de suprimentos de Epitáfio, engoliu uma barra de cereal, um quarto de sanduíche velho, e fez ainda um tosco curativo na têmpora. Sentado, alimentado e limpo, o deus do sono fez-se implacável, em um dos vértices da estrela feita de divas el adormeceu.
* * *
Era uma sensação diferente a que Pirata sentia. Estava forte, via com uma nitidez impressionante e cada milímetro seu pulsava com absoluta força. Não era seu sonho aquilo, não podia ser seu.
Estava em uma sala com muitas portas, milhares delas. Atraído por seu sistema sensível, escolheu uma delas, abriu e entrou.
Quase caiu com a lufada de vento frio seguida de um grito agudo. Formas de serpentes, humanos e estranhos répteis rodeavam uma menina em um dos cantos da sala. A menininha com vestidinho rasgado, segurava a cabeça tapando os ouvidos ao mesmo tempo que deslizava seus pés no chão.
Pirata sabia o que fazer. Fechou os punhos e sem aproximar-se chamou a menina:
- Camila... Camila... – As sombras uniram-se avançando e pressionando a menina. – Camila... É apenas um sonho mau. As sombras só podem fazer contigo o que você permitir. Levanta e tente encara-las.
Instantâneo. Utilizando forças próprias vindas de seu interior, a menina ficou de pé, o ambiente pareceu mais quente e iluminado. Secando as lagrimas e estufando o peito, a menina maior do que aparentava, começou a bater os pés e sorrindo avançou para as sombras que bateram em retirada.
O perigoso porem interessante, era que Camila agiu por vontade própria. Sim! O estimulo partiu de uma fonte externa, mas se não partisse também de dentro, nem ao menos um músculo seria movido.
Camy sabia disso. Não estava livre dos pesadelos – eles sempre viriam – mas a energia mental que age em simultaniedade, o elemento vontade.
Camila seguiu Luiz e fortalecidos, caminharam rumo a uma outra porta.
* * *
EPÍLOGO
SEGUNDA-FEIRA, 1 DE NOVEMBRO DE 2010
A caminhada da existência é algo intrigante, apesar de todos terem partido de um mesmo ponto, ao mesmo tempo, alguns estão muito a frente em seu processo de desenvolvimento, outros claudicam lá atrás.
Existem pessoas convivendo conosco que claramente apresentam seu posicionamento nessa jornada. Aquela menina apesar da pouca idade possuía seus sistemas mental, sensível e instintivos bastante equilibrados, seus conceitos evoluídos não só a ajudavam em seu próprio processo mas no processo alheio.
A menina fazia questão de deixar escrito por todos os caminhos que trilhava, dicas e opiniões para que aqueles que caminhavam atrás pudessem desfrutar de um refrigério duradouro pela longa batalha pela conquista de si mesmo e pela grande imposição.
Certamente Paty era uma dessas meninas. Agora, sentada na escada do segundo andar daquela escola, chorava abraçada aos joelhos, tentando formular uma saída para os problemas que martelavam em sua cabeça. Ouvia passos, seria seu amigo para todas as horas?
***
Existem pessoas convivendo conosco que claramente apresentam seu posicionamento nessa jornada. Aquela menina apesar da pouca idade possuía seus sistemas mental, sensível e instintivos bastante equilibrados, seus conceitos evoluídos não só a ajudavam em seu próprio processo mas no processo alheio.
A menina fazia questão de deixar escrito por todos os caminhos que trilhava, dicas e opiniões para que aqueles que caminhavam atrás pudessem desfrutar de um refrigério duradouro pela longa batalha pela conquista de si mesmo e pela grande imposição.
Certamente Paty era uma dessas meninas. Agora, sentada na escada do segundo andar daquela escola, chorava abraçada aos joelhos, tentando formular uma saída para os problemas que martelavam em sua cabeça. Ouvia passos, seria seu amigo para todas as horas?
***
SÁBADO, 30 DE OUTUBRO DE 2010
Capítulo 50 de como fui enganada
Prólogo
A FELICIDADE é algo impossível! Forma idiota de começar uma história, "A FELICIDADE é algo impossível!", digo assim, FELICIDADE com letras maiúsculas que todos perseguem, uns mais outros menos. Penso que a felicidade é como uma grande viajem de busca, da qual só nos damos conta do que procurávamos ao final, quando percebemos que nos foi dado em pequenas porções ao longo de todo o processo.
O que vou narrar poderia ser mais uma história adolescente, poderia mas não é. Aconteceu no ano de 2004 e mudou verdadeiramente a vida daquelas pessoas, eu era uma delas. Não vou assinar, me identificar, nem mostrar-me por completo, vou apenas despir-me em verdades para que aquele que me lê conheça essa porção de infinito.
Capítulo 50 - De como fui enganada.
O dia escolar acabava as 11:30 em ponto e Camila estava possessa. Em um momento das aulas pareceu que todos os olhares convergiam em sua direção.
"Bosta!" Pensou.
"Não era aula de história? Para que falar de infinito, espírito e amor?" Deu um chute tão grande em uma lata de refrigerante que a mesma voou quase uma dezena de metros para o lado.
"Se não gostasse desse professor eu... eu..." Entrou no carro cinza de seu pai que a esperava no portão do colégio Joaquim Maria Machado - O Machadão - batendo a porta num gesto que dizia para seu pai ao mesmo tempo, arranca o carro, em silêncio e me tira daqui RÁPIDO.
"Sua noite não foi boa, e ainda teve problemas Cá?" O pai acostumado a quebrar aquela carapaça centímetro a centímetro como um delicado escultor apenas esperou, sabia que a resposta viria.
"Os pesadelos voltaram." Ela disse isso já com grossas lágrimas rolando pelas bochechas morenas.
***
Douglas caminhava sozinho e incomodado. Seu melhor amigo e escudeiro havia ficado na escola para fazer não sei o que, e o tempo parecia passar mais lentamente quando ele acordava daquela forma; agitado, suarento e com o rosto banha do de pavor e tristeza.
"Que bunda, sô! Que que tá pegando?"
Douglas entrava agora na sua casa constatando que seu amigo havia ficado na escola para conversar com Patrícia, colega de sala, devaneios e muito mais.
***
A FELICIDADE é algo impossível! Forma idiota de começar uma história, "A FELICIDADE é algo impossível!", digo assim, FELICIDADE com letras maiúsculas que todos perseguem, uns mais outros menos. Penso que a felicidade é como uma grande viajem de busca, da qual só nos damos conta do que procurávamos ao final, quando percebemos que nos foi dado em pequenas porções ao longo de todo o processo.
O que vou narrar poderia ser mais uma história adolescente, poderia mas não é. Aconteceu no ano de 2004 e mudou verdadeiramente a vida daquelas pessoas, eu era uma delas. Não vou assinar, me identificar, nem mostrar-me por completo, vou apenas despir-me em verdades para que aquele que me lê conheça essa porção de infinito.
Capítulo 50 - De como fui enganada.
O dia escolar acabava as 11:30 em ponto e Camila estava possessa. Em um momento das aulas pareceu que todos os olhares convergiam em sua direção.
"Bosta!" Pensou.
"Não era aula de história? Para que falar de infinito, espírito e amor?" Deu um chute tão grande em uma lata de refrigerante que a mesma voou quase uma dezena de metros para o lado.
"Se não gostasse desse professor eu... eu..." Entrou no carro cinza de seu pai que a esperava no portão do colégio Joaquim Maria Machado - O Machadão - batendo a porta num gesto que dizia para seu pai ao mesmo tempo, arranca o carro, em silêncio e me tira daqui RÁPIDO.
"Sua noite não foi boa, e ainda teve problemas Cá?" O pai acostumado a quebrar aquela carapaça centímetro a centímetro como um delicado escultor apenas esperou, sabia que a resposta viria.
"Os pesadelos voltaram." Ela disse isso já com grossas lágrimas rolando pelas bochechas morenas.
***
Douglas caminhava sozinho e incomodado. Seu melhor amigo e escudeiro havia ficado na escola para fazer não sei o que, e o tempo parecia passar mais lentamente quando ele acordava daquela forma; agitado, suarento e com o rosto banha do de pavor e tristeza.
"Que bunda, sô! Que que tá pegando?"
Douglas entrava agora na sua casa constatando que seu amigo havia ficado na escola para conversar com Patrícia, colega de sala, devaneios e muito mais.
***
CENARIO DO MAPA
A floresta Servidão era um lugar intrigante. Apesar de estar em um terreno árido havia ali uma umidade e escuridão no mínimo incomum para aquele tipo de formação. No inicio de sua existência, nenhum ser vivo dava conta mesmo porque naquela região não haviam seres vivos dedicados ao estudo ou percepção da origem do que quer que fosse.
Situada ao leste do monte Moale, era composta por um único tipo de árvores: as flamboyant, que devido ao traçado dos galhos impedia completamente a entrada de luz solar, havia duas clareiras centrais, as únicas pontas de onde o céu poderia ser visto. Era ali que Camy estava.
* * *
A galé é uma embarcação grande que tanto poderia se movimentar pela força dos ventos quanto pela propulsão dos remos. Remos esses que se moviam embalados pelo ritmo do tambor tocado por um líder ou qualquer outro escravo (por um tempo na historia dos seres humanos galé foi sinônimo de batalhas e escravidão).
Estranho era o fato de que a galé em questão não estava em um oceano, e sim atravessada em um rio sinuoso de águas tão densas e tão sujas que era impossível à existência de qualquer forma de vida em suas águas. Nesse rio que tangenciava aquela estranha terra de leste a oeste, era a única forma de se sair de um ponto e chegar a outro ileso, caso contrario o aventureiro tolo deveria atravessar a vila sem vida, a floresta de Servidão, escalar um paredão rochoso, para somente chegar ao deserto de Sal.
Pena, no convés da galé abandonada que obstruía o rio, sentia seus joelhos tremerem por baixo da sua armadura azul.
* * *
Paulo ardia. Debaixo de seus pés a areia branca de sal e amarelo de silício formava um grande espelho que parecia refletir toda a luz solar em sua direção, sua boca estava amarga e o suor que brotava de sua testa escorria por sua face fazendo arder seus olhos e todo o seu corpo. Havia aprendido sobre desertos quentes e frios nas aulas do professor Epitáfio, mas nenhum conteúdo, nenhuma lição, se igualava aquilo; parou a sombra de uma palmeira que compunha aquele escaldante cenário e contemplou o paredão rochoso, base de um estranho de quinze anos recém completos e com plena saúde, se não fosse pelo medo, o calor e a aflição que sentia.
- Meu Deus!
Balbuciou Paulo agachando-se para pegar uma pedra fazendo brilhar sua armadura.
- Mármore! Nunca pensei que existisse uma rocha tão valiosa em quantidades tão bafufantes.
Paty já havia caminhado por horas e sempre carregava consigo a impressão de estar no mesmo lugar. O chão rochoso qual ela pisava era liso e brilhante, que nenhum __________ já visto por ela poderia comparar-se.
Ela tentava localizar o sol para encontrar uma direção, mas cada vez que olhava para o céu, era tomada por duvidas de se o que via eram nuvens ou blocos de pedra disformes e encaixadas.
- Eu juro que já passei por aqui.
O mármore azul cintilava refletindo sua silhueta, ora aumentando suas proporções, ora reduzindo-as. Paty sentia as lágrimas embaçarem seus olhos castanhos, e um bolo de angustia sufocar sua garganta, mas se recusava a chorar. Concentrou-se em seus pensamentos, pensou em seus amigos, apertou os olhos e seguiu em frente ________ .
- Pena, você terá uma lança para se proteger, mas sua maior proteção vem do alto e de dentro de você, saia já do barco e siga rumo ao sul em direção ao castelo.
A voz de Pirata soava claramente ao redor de Pena e sua foresenca era sentida quase fisicamente, o que causou em si uma sensação de segurança e conforto apesar da infestação de ratos no convés da galé onde ele caminhava. O barulho da água era forte e insistente apesar de Pena não perceber nenhuma movimentação no leito do rio, o barco balançou e ele ________ lentamente, passou por uma estreita prancha de madeira que ligava a embarcação a terra firme, somente então Pena se deu conta de sua vestimenta: uma armadura azul de botas metálicas que protegia todos os pontos vitais de seu corpo, deixando somente expostos o pescoço e a cabeça.
TERÇA-FEIRA, 18 DE JANEIRO DE 2011
É interessante -fui advertido por uma amiga a não iniciar frases com verbo, ou fazê-lo com o máximo de personalidade possível. Mas enfim faço e nem gosto da palavra personalidade. Sigamos.- é impressionante como todos nós, seres humanos normais nos enganamos quanto a vida. A vida real é diferente dos diversos modos literários, dos filmes, das novelas, e tantas outras formas de arte onde o bem sempre vence, ou se tudo acaba de uma forma pouco satisfatória para aquele que consome o produto, arte, ainda ganhamos uma mensagem de positivismo, luta e esperança para que sigamos de pé e confiantes.
Mas se tudo realmente fosse acabar bem sempre, digo na vida real, essas mensagens não teriam sentido de existir -ou teriam?- nenhum ser humano coloca uma placa num poste para avisar "POSTE", logo, as mensagens de positivismo e atos heróicos dos filmes, suas mensagens de superação e força são uma referência, não uma garantia de que tudo dará certo. Aquela semana foi uma dessas.
Depois de salvar a escola inteira, Paty, Camy, Pena, Pirata e o Professor Epitáfio estavam contentes e na escola um ambiente de paz reinava. Todos estavam felizes, e os incidentes eram contornados por quem desse o primeiro passo e tudo acabava em sorrisos e pedidos de desculpas. Quase tudo.
Um pequeno incômodo rondava meus amigos Camy não falava com Douglas e apesar de cessadas as rusgas de outrora o silêncio entre os dois era tangível. Ao passar pelo corredor numa quinta feira, seis dias depois de estarem reunidos pela última vez foi Camy quem deu o primeiro passo. Ao passar por Douglas simplesmente sorriu. Aquele sorriso depois de dias de mutismo, e uma vida de grosserias, patadas e olhares gélidos de ambos os lados, era uma fresta na armadura de ódio de ambos, ódio torpe e sem sentido.
No dia seguinte foi a vez de Douglas dar uma outra pancada no ódio de ambos.
" Escuta, como não dormimos mais juntos, e não sonhamos as mesmas coisas eu gostaria de te dar isso..."
Uma caixinha losangular, de metal toda vazada, com uma tampa de encaixe na qual com o mesmo metal, o artista havia feito uma rosa também dourada.
Antes de abrir Camy viu Pena se afastar e dizer com um sorriso cúmplice e uma piscadela;
" Não vou precisar mais, se eu não lhe encontrar por enquanto, espero que você entenda o recado!"
Dentro havia um protetor de ouvido, e um papel bem dobrado na forma na forma de um origami garça.
" Ele pensa que eu ronco?!" Camy apertou a caixa com tanta força que quase sangrou sua mão. Tentando respirar, com o coação aos saltos, retirou a ave bem dobrada de dentro de sua bela clausura, ao tocar no papel sentiu que todo seu ódio preso na garganta, poderia ter picado aquela ave em mil pedaços mas não o fez desdobrando com as mãos trêmulas leu;
" Não é você quem ronca, mas tenho medo que meu coração demonstre o quanto fico agitado todas as vezes que nos aproximamos. Esse também é um amuleto que te protegerá de minhas piadas e bobagens.
sede bem comigo, serei bem contigo
se algo nisso falhar estarei a te esperar
estivemos juntos la fora, agora o estamos aqui dentro
se teu coração dispara agora, contenha-o para o momento"
Camy correu para casa aos saltos querendo dividir seus sonhos com mais alguém.
SEGUNDA-FEIRA, 1 DE NOVEMBRO DE 2010
A caminhada da existência é algo intrigante, apesar de todos terem partido de um mesmo ponto, ao mesmo tempo, alguns estão muito a frente em seu processo de desenvolvimento, outros claudicam lá atrás.
Existem pessoas convivendo conosco que claramente apresentam seu posicionamento nessa jornada. Aquela menina apesar da pouca idade possuía seus sistemas mental, sensível e instintivos bastante equilibrados, seus conceitos evoluídos não só a ajudavam em seu próprio processo mas no processo alheio.
A menina fazia questão de deixar escrito por todos os caminhos que trilhava, dicas e opiniões para que aqueles que caminhavam atrás pudessem desfrutar de um refrigério duradouro pela longa batalha pela conquista de si mesmo e pela grande imposição.
Certamente Paty era uma dessas meninas. Agora, sentada na escada do segundo andar daquela escola, chorava abraçada aos joelhos, tentando formular uma saída para os problemas que martelavam em sua cabeça. Ouvia passos, seria seu amigo para todas as horas?
***
Existem pessoas convivendo conosco que claramente apresentam seu posicionamento nessa jornada. Aquela menina apesar da pouca idade possuía seus sistemas mental, sensível e instintivos bastante equilibrados, seus conceitos evoluídos não só a ajudavam em seu próprio processo mas no processo alheio.
A menina fazia questão de deixar escrito por todos os caminhos que trilhava, dicas e opiniões para que aqueles que caminhavam atrás pudessem desfrutar de um refrigério duradouro pela longa batalha pela conquista de si mesmo e pela grande imposição.
Certamente Paty era uma dessas meninas. Agora, sentada na escada do segundo andar daquela escola, chorava abraçada aos joelhos, tentando formular uma saída para os problemas que martelavam em sua cabeça. Ouvia passos, seria seu amigo para todas as horas?
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SÁBADO, 30 DE OUTUBRO DE 2010
Capítulo 50 de como fui enganada
Prólogo
A FELICIDADE é algo impossível! Forma idiota de começar uma história, "A FELICIDADE é algo impossível!", digo assim, FELICIDADE com letras maiúsculas que todos perseguem, uns mais outros menos. Penso que a felicidade é como uma grande viajem de busca, da qual só nos damos conta do que procurávamos ao final, quando percebemos que nos foi dado em pequenas porções ao longo de todo o processo.
O que vou narrar poderia ser mais uma história adolescente, poderia mas não é. Aconteceu no ano de 2004 e mudou verdadeiramente a vida daquelas pessoas, eu era uma delas. Não vou assinar, me identificar, nem mostrar-me por completo, vou apenas despir-me em verdades para que aquele que me lê conheça essa porção de infinito.
Capítulo 50 - De como fui enganada.
O dia escolar acabava as 11:30 em ponto e Camila estava possessa. Em um momento das aulas pareceu que todos os olhares convergiam em sua direção.
"Bosta!" Pensou.
"Não era aula de história? Para que falar de infinito, espírito e amor?" Deu um chute tão grande em uma lata de refrigerante que a mesma voou quase uma dezena de metros para o lado.
"Se não gostasse desse professor eu... eu..." Entrou no carro cinza de seu pai que a esperava no portão do colégio Joaquim Maria Machado - O Machadão - batendo a porta num gesto que dizia para seu pai ao mesmo tempo, arranca o carro, em silêncio e me tira daqui RÁPIDO.
"Sua noite não foi boa, e ainda teve problemas Cá?" O pai acostumado a quebrar aquela carapaça centímetro a centímetro como um delicado escultor apenas esperou, sabia que a resposta viria.
"Os pesadelos voltaram." Ela disse isso já com grossas lágrimas rolando pelas bochechas morenas.
***
Douglas caminhava sozinho e incomodado. Seu melhor amigo e escudeiro havia ficado na escola para fazer não sei o que, e o tempo parecia passar mais lentamente quando ele acordava daquela forma; agitado, suarento e com o rosto banha do de pavor e tristeza.
"Que bunda, sô! Que que tá pegando?"
Douglas entrava agora na sua casa constatando que seu amigo havia ficado na escola para conversar com Patrícia, colega de sala, devaneios e muito mais
A FELICIDADE é algo impossível! Forma idiota de começar uma história, "A FELICIDADE é algo impossível!", digo assim, FELICIDADE com letras maiúsculas que todos perseguem, uns mais outros menos. Penso que a felicidade é como uma grande viajem de busca, da qual só nos damos conta do que procurávamos ao final, quando percebemos que nos foi dado em pequenas porções ao longo de todo o processo.
O que vou narrar poderia ser mais uma história adolescente, poderia mas não é. Aconteceu no ano de 2004 e mudou verdadeiramente a vida daquelas pessoas, eu era uma delas. Não vou assinar, me identificar, nem mostrar-me por completo, vou apenas despir-me em verdades para que aquele que me lê conheça essa porção de infinito.
Capítulo 50 - De como fui enganada.
O dia escolar acabava as 11:30 em ponto e Camila estava possessa. Em um momento das aulas pareceu que todos os olhares convergiam em sua direção.
"Bosta!" Pensou.
"Não era aula de história? Para que falar de infinito, espírito e amor?" Deu um chute tão grande em uma lata de refrigerante que a mesma voou quase uma dezena de metros para o lado.
"Se não gostasse desse professor eu... eu..." Entrou no carro cinza de seu pai que a esperava no portão do colégio Joaquim Maria Machado - O Machadão - batendo a porta num gesto que dizia para seu pai ao mesmo tempo, arranca o carro, em silêncio e me tira daqui RÁPIDO.
"Sua noite não foi boa, e ainda teve problemas Cá?" O pai acostumado a quebrar aquela carapaça centímetro a centímetro como um delicado escultor apenas esperou, sabia que a resposta viria.
"Os pesadelos voltaram." Ela disse isso já com grossas lágrimas rolando pelas bochechas morenas.
***
Douglas caminhava sozinho e incomodado. Seu melhor amigo e escudeiro havia ficado na escola para fazer não sei o que, e o tempo parecia passar mais lentamente quando ele acordava daquela forma; agitado, suarento e com o rosto banha do de pavor e tristeza.
"Que bunda, sô! Que que tá pegando?"
Douglas entrava agora na sua casa constatando que seu amigo havia ficado na escola para conversar com Patrícia, colega de sala, devaneios e muito mais
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